quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Adeus número 3

Deixo-te com tua vida
teu trabalho
tua gente
com teus pores-do-sol
e teus amanheceres.
.
Semeando tua confiança
deixo-te junto ao mundo
derrotando impossíveis
segura sem seguro.
.
Deixo-te frente ao mar
decifrando-te a sós
sem minha pergunta às cegas
sem minha resposta rota.
.
Deixo-te sem minhas dúvidas
pobres e mutiladas
sem minha imaturidade
sem minha veteranice.
.
Mas também não creias
de pés juntos em tudo
não creias nunca creias
neste falso abandono.
.
Estarei onde menos
esperares
por exemplo
numa árvore anciã
de obscuros cabeceios.
.
Estarei num distante
horizonte sem horas
na marca do tato
em tua sombra e minha sombra.
.
Estarei repartido
em quatro ou cinco meninos
desses para quem olhas
e em seguida te seguem.
.
E tomara possa estar
de teus sonhos na trama
esperando teus olhos
e te olhando.
.
.
Mario Benedetti
(Tradução de Celina Portocarrero)
.

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