quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Duas lágrimas

Ainda era cedo para acender as lâmpadas, o que pelo menos precipitaria uma noite. A noite que não vinha, não vinha, não vinha, que era impossível. E o seu amor que agora era impossível - que era seco como a febre de quem não transpira, era amor sem ópio nem morfina. E 'eu te amo' era uma farpa que não se podia tirar com uma pinça. Farpa encrustada na parte mais grossa da sola do pé. [...] Ela só percebe que agora alguma coisa vai mudar, que choverá ou cairá a noite. Mas não suporta a espera de uma passagem, e antes da chuva cair o diamante dos olhos se liquefaz em duas lágrimas. E enfim o céu se abranda.

Clarice Lispector. Calor humano. In: A Descoberta do Mundo

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